Tamanho texto:

-A A +A

Alto contraste:

  • White/Black
  • Padrão

Current Style: Padrão

RELATÓRIO Escola de verão, Cali, Colômbia. Estudos avançados Diálogos Etnicorraciais entre África, América e Europa.

RELATÓRIO

Escola de verão, Cali, Colômbia.

Estudos avançados Diálogos Etnicorraciais entre África, América e Europa.

 

Relato de Janeth Suzart:

Retornei de Cali com a sensação de tarefa cumprida, mas também com a certeza de que o caminho para percorrer está apenas começando, trago na bagagem uma gama de experiência inigualável, novos amigos e parcerias, novos conhecimentos e também dúvidas, pois faz parte da aprendizagem, é o que nos impulsiona para a pesquisa.

Das conferências magnas e dos painéis de discussão o debate sobre as questões etnicorraciais em suas diversas perspectivas, literárias, sociológicas, históricas, filosóficas e geográficas nos trouxe um enriquecimento e adesão de novos conhecimentos, além de ampliar meus horizontes e conhecimentos como pesquisadores da temática, não posso deixar de registrar as contribuições pessoais de outros estudantes e professores presentes no encontro e que influenciaram na minha vida como pessoa, devido á convivência harmoniosa e bastante solidária.

Nas mesas temáticas tivemos a oportunidade de conhecer outros pesquisadores e diversas abordagens sobre a temática racial, na área da educação, etnicidade, juventude, processos políticos, saúde e corpo e processos históricos, após a apresentação do projeto recebemos contribuições valiosas assim como contribuímos também nos projetos  apresentados.

Nas aulas de campo, estivemos  na cidade de Buenaventura, considerada a capital do Pacífico, principal porta de entrada de negros escravizados trazidos da África, o que justifica que 98% da sua população seja preta e que reflita uma cultura com bastante influência africana, a Associação de parteiras, exerce um papel de destaque na comunidade com o exercício de uma medicina alternativa, milenar, baseada em chás e usos de ervas medicinais, inclusive com uma exposição no centro cultural da cidade.

No distrito de Água Blanca, no oeste de Cali, assim como em Santander de Quilichao, no leste do Valle de Cauca, e entre as populações campesinas, podemos observar que a questão da territorialização tem grande importância para eles, essas populações foram em algum momento “desplazadas” de seu lugar de origem e encontraram nesses lugares um abrigo. Percebe-se também as desigualdades sociais entre essas populações cuja maioria é formada por pretos e  indígenas, são marcadas pela desigualdade geográfica no centro situam-se os ricos que são brancos e mestiços e no norte e oeste estão os pobres que são em maioria pretos, pardos e indígenas. Os bolsões de pobreza ficam afastados do centro da cidade. Fazendo um parâmetro com o Brasil e em particular com Salvador, a logística da desigualdade não é diferente, aqui os menos favorecidos também vivem afastados do centro, concentram-se em bairros periféricos e subúrbio ferroviário, notadamente com sua população formada maciçamente por pretos e pardos.

A aula para conhecer a Escola Verde, um projeto de uma escola rural onde os alunos permanecem na escola durante todo o dia e retornam a noite para suas casas, tudo que se consome na escola é fruto do trabalho realizado dentro do projeto, além disso, existe uma associação de agricultores que juntos conseguiram superar as dificuldades da agricultura. Faz parte do projeto uma fábrica de farinha, com produção bem artesanal, embora não plantem a “yuca”, eles a exportam do Equador. As fábricas lembram muito “as casas de farinha” do interior da Bahia.

Enfim participar desse diálogo em solo caleño, colombiano marcado pela diversidade cultural, linguística e de práticas diversas, foi um ampliar de horizontes não apenas como pesquisadora, mas, sobretudo, como pessoa.

Meus agradecimentos a Universidade Federal da Bahia, POSAFRO, a coordenação na pessoa do professor Lívio Sansone, ao apoio da Universidade de Bayreuth, na Alemanha, a equipe colombiana organizadora do diálogo, a professora Rosa Bermudez, a Jan Grill e Carlos Bohm, pelo acolhimento, presteza e competência.

Salvador, 09 de dezembro de 2017.

Janete Fernandes Suzart- Doutoranda em Estudos Étnicos/ POSAFRO/UFBA.

 

Relato de Eumara Maciel:

“Y ahora como vivo yo?” Essa frase é mais do que um refrão captado na primeira saída de campo da Escola de Estudos Avançados Diálogos Etnicorraciais: não me sai dos ouvidos a voz daquela senhora cantando, na Associação Casa Cultural o Chontaduro, a experiência do desterritório das famílias que, ao serem expulsas da zona rural, buscam seu entre-lugar ali numa das comunas do distrito de Aguablanca, zona oriental de Cali, que abriga o maior índice populacional negro e indígena da urbe. Portanto, Aguablanca, antes de qualquer coisa, hoje, é como um quilombo urbano construído pela representação da história da colonização da América Latina. Sim, a colonização, o tráfico negreiro e a escravização nos formaram como nós somos... Afrodescendentes, carregamos a ancestralidade, a história dos nossos. E é nesse sentido de retomada de consciência histórica e cultural que a referida associação trabalha na comunidade, de modo a promover ações com jovens e adultos que ativem o senso crítico e autocrítico enquanto buscam soluções coletivas para as problemáticas enfrentadas local e globalmente.

Afinal, como viveremos nós? Eu vim embora da Colômbia com o eco desse canto: como viver na cena da desterritorialização? Vim buscando respostas nas discussões teóricas para atender ao que me fez remontar, não só uma memória do desterritório dos campesinos, mas também a memória de uma diáspora que não cessa; um desenraizamento não só das terras do interior, mas um símbolo maior de uma diáspora novamente forçada, suas violentas e dolorosas demandas como que em um ciclo de desigualdade que se cumpre a cada geração sem muitas reparações.

Para toda essa inquietude gerada nessa Escola de Verão, atravessei o céu do Brasil para aterrissar no Vale do Cauca e conhecer aquela parte da Colômbia, começando por Cali. A Universidade do Vale foi palco para as conferências, mesas temáticas e painéis de discussão, abordando os mais diversos temas, tais como: ser negro, ser negra na América Latina. Como estudar raça na América Latina com todas as variáveis. A importância dos mapeamentos, mesmo que por amostragem dos censos para a mensura das demandas, os impactos e influências nas vidas das pessoas para o desenvolvimento de políticas públicas, pensando oportunidades específicas para populações com necessidades.  Estratégias antirracistas, abordagem interseccional das desigualdades, entre tantos outras com olhares antropológicos, sociológicos, literários, filosóficos, geográficos e históricos.

Somadas a essas atividades, estavam mais duas saídas de campo: uma para Buenaventura e outra para Santander de Quilichao. Em Buenaventura, conhecemos a zona portuária que, arremessada ao Oceano Pacífico, tem sua história com a recepção de corpos, experiências e culturas através do tráfico negreiro. Conhecemos a oficina de instrumentos musicais e almoçamos ao som da marimba tocada pelos alunos que a confeccionavam e a afinavam. Além de visitar a exposição Partería, saber ancestral e prática viva, no Centro Cultural de Buenaventura, tivemos o prazer de ouvir as integrantes da associação comunitária de parteiras de Buenaventura ao imergir num universo de saberes tradicionais de mulheres de grande parte da costa pacífica colombiana que se reuniram no sentido de fortalecer sua prática cultural, essa memória viva que atravessa gerações e tonou-se patrimônio cultural mesmo frente aos impasses com a medicina alopática de hospitais. Um exemplo de respeito ao corpo da mulher e do bebê, seu tempo, o espaço que ocupa, os cuidados com a alimentação, com a espiritualidade, respeitando os limites da gestação num ato de gratuito no acompanhamento da gestante antes, durante e depois do parto. Aprendi muito com esse saber tradicional de cuidado com o outro.

Em Santander de Quilichao, fomos conhecer a Associação Regional para o Desenvolvimento Campesino Nortecaucano, que funciona na Escola Verde. Reunindo produtores voltados para a agropecuária, a associação tem como objetivo implementar e capacitar para produção com fins nos convênios de comercialização com as indústrias. Nesses moldes, conseguem financiamentos específicos, têm acesso a assistência técnica e fazem escoar com maior estabilidade a sua produção nessa dinâmica cooperativa. Fomos levados para observar as etapas da produção marcadamente rudimentar do almidón de yuca, para nós, a tapioca, desde a chegada da mandioca até a retirada do almidón para o comércio. Foi um momento instigante ver como somos próximos nesses modos de produção mesmo estado geograficamente distantes. Estamos mesmo conectados uns aos outros; é importante que fiquemos atentos para a troca de experiências.

Em meio a todas essas atividades, passamos oito dias com intensivas empreitadas pelas questões etnicorraciais na África, América e Europa. Desde as falas formais até as prosas no café da manhã, experiência teóricas, práticas, linguísticas, culturais, gastronômicas e interpessoais foram exercitadas na convivência de pesquisadores e pesquisadoras com perspectivas da Colômbia, Moçambique, Angola, Alemanha, Brasil, Equador, Venezuela, Colômbia, Senegal, Inglaterra, Estados Unidos, França, Camarões, República Tcheca... E, apesar dos diferentes lugares de fala, as referências se comunicam, não são isoladas.

Línguas diversas, uma linguagem em comum: a vontade de aprender nos uniu.  

Em espanhol, em inglês, em alemão, em português, no encontro dessas línguas discutimos diversas perspectivas sobre as relações etnicorracisais. Também não haviam barreiras linguísticas quando ríamos juntos a caminho da Univalle ou no jantar no Depeapan.

Na dinâmica da identidade/diferença, o que saltou aos meus olhos foi o modo como estamos interligados em matéria de história aos demais países latinos, à Europa, à África, isso para dizer que não estamos isolados nas problemáticas e discursões, estamos, sim, unidos em grandes constantes como contra o etnocentrismo, com ações antirracistas, na defesa dos territórios e na urgência de políticas públicas que levem em considerações as demandas étnicorraciais dos povos.

De Cali, voltei tocada pelo som da marimba, pelo ritmo da salsa, o gosto do run, o ímpar sabor do suco de lulo, o doce do manjar branco, o calor na caminhada até a Univalle, a inquietude por cada fala. Volto também tocada pela gratidão ao Pós-Afro/UFBA, à Univalle e à Universidade de Bayreuth pela oferta desse encontro. E sobretudo, quando voltava para o Brasil naquele avião, fui tocada por todas as experiências em solo colombiano sempre com o alerta da necessidade de agendas de ações com a abordagem eticorracial; precisamos de prática, já que as discussões já são realizadas. Precisamos admitir que as populações negra e indígena são alvos de genocídios e epistemicídios... Jovens negros morrem enquanto escrevo este relato, por exemplo.

E quanto ao eco persistente daquele canto desde Aguablanca, pensei daqui de longe: Como vivemos nós? Viveremos a reinvenção da nossa existência que exige luta, resistência e fortalecimento de redes. E esse movimento foi realizado na escola de Estudos Avançados Diálogos Etnocorraciais: África, América e Europa, entre saberes e sabores caleños. É, eu já estou em casa, mas todas as discussões ainda estão muito vivas na minha mente, Cali ainda está aqui dentro de mim, porque a gente parte dos lugares, mas as experiências não se vão de nós, portanto, ajamos!

Eumara Maciel

Doutoranda do Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos da Universidade Federal da Bahia.

 

Relato de experiência: Escola de vivências avançadas em Cali

Stéphanie Moreira

A possibilidade de participar de um evento em Cali não poderia ficar restrita a uma empreitada acadêmica. Trata-se da segunda cidade mais negra fora da África, depois apenas de Salvador, na Bahia, onde tenho vivido desde 2016 cursando – entre outras atividades – o doutorado em Estudos Étnicos e Africanos no Pós Afro/UFBA. Interesso-me por pesquisar de forma transdisciplinar campos de estudos que atravessam a antropologia histórica, a arte, as culturas negras e os processos políticos que as atravessam e diante disso a viagem foi estruturada como uma imersão cultural parte no universo acadêmico, parte fora dele, buscando um constante diálogo e fortalecimento.

Eu nutria interesse pelo contexto colombiano onde vingaram manifestações culturais afroindígenas tais como arruyos, bambuco viejo, cumbia e bullerengues bem como das lutas de auto defesa, especialmente a esgrima negra colombiana[1]. Tendo um tempo curto e estando mais envolvida pelas práticas de luta[2] do que de dança passei a buscar, através das redes sociais, formas de contato com a Academia de Esgrima de Machete y Bordón de Puerto Tejada, no norte do departamento de Cauca, cujas lideranças são o Mestre Hector Helias Sandoval e seu discípulo Mestre Miguel Lourido. Conseguindo conectar-me com um dos alunos da academia de esgrima – Edgar – que é também professor de capoeira contemporânea em Cali, aluno de Mestre Fran, ele se tornou o principal interlocutor e guia nas atividades não acadêmicas em Cali e Puerto Tejada. A partir de sua colaboração como mediador propus um escambo de artes no qual eu solicitei uma semana de aulas de esgrima criolla e em troca ofereceria aulas de capoeira angola para a comunidade local estando aberta a outras formas de colaboração para fortalecer os processos comunitários que ali estavam se desenvolvendo. O escambo cultural foi aceito e a viagem havia começado.

Cheguei em Cali dia 16 de novembro e tive a oportunidade de participar de algumas atividades não previstas. A primeira delas aconteceu dia 18 a convite de Edgar quando participei do ‘I Encontro Mujeres del Oriente de Cali: Reconstruyendo dignidade em nuestros territorios’ que reuniu mulheres e homens no complexo educacional Nuevo Latir no Distrito de Água Blanca, parte da cidade de Cali que carrega uma gama de estereótipos e problemáticas sociais decorrentes de um abandono sistemático de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento da região e sua população mas que oferece pontos fortes de articulação política e cultural de resistência e ressignificação do espaço e das trajetórias das pessoas que ali vivem. As discussões eram organizadas por palenques, e participei do Palenque Memória, Território e Tradição. As pessoas dos movimentos sociais periféricos tem uma potência tão forte quanto as problemáticas que carregam e fazem uso de categorias como memória e território como ferramenta de compreensão do presente e de construção do futuro. As preocupa a dignidade de suas vidas, de suas famílias e a valorização de seu lugar considerando para isso as memórias de seus lugares de origem e as razões pelas quais foram desterritorializados encontrando no distrito de Água Blanca um novo espaço de vida. São muitas as implicações de ‘desplazamiento’ dessas populações, as mais recorrentes estão relacionadas ao conflito armado e a violência estatal e agroindustrial. As questões que mais me chamaram a atenção em relação ao trato relegado à população do distrito são as várias formas de racismo, incluindo o racismo ambiental, e por parte da população local a necessidade de mudar a linguagem negativa sobre as pessoas e o lugar como forma de desestruturar o estigma que carregam.

Os encontros na periferia são propositivos, os conceitos não flutuam, eles são ferramentas não só de compreensão do mundo: o mundo se sente, se vive, se sofre, se constrói, se cheira e se abraça. Pelo corpo se compreende o mundo – e também a partir da contagem dos corpos, impressão que a estatística não dá – memória garantida também através do recurso da oralidade. Os conceitos teóricos na periferia são ferramentas para organizar os discursos que servem para mudar sua realidade.

Conheci também a Fundação Guagua, uma organização não governamental de direitos humanos cujo fim é ‘aportar à construção coletiva uma realidade de paz, democracia e direitos humanos na Colômbia a partir do desenvolvimento de processos educativos, investigativos e organizativos, tendo em conta a diversidade de gênero, étnica, etária e integrando em seu trabalho com as comunidades a ciência, a arte e o esporte’. Nasceu há cerca de 18 anos pela necessidade de se trabalhar desde a parte acadêmica, artística e de direitos humanos com crianças do bairro La Playa que agora possui o Conselho Comunitário de Negritudes La Playa Renasciente e o público alvo de suas ações são os familiares das vítimas de violência estatal colombiana e desaparecimento forçado na cidade de Cali e intersecção com comunidades indígenas e negras[3].

Dia 19 fui ao Pueblo de Villa Rica no norte caucano chegando em meio a uma festividade familiar em um sítio onde estavam reunidos os mestres da Esgrima de Machete de Puerto Tejada Hector Elias Sandoval e Miguel Lourido bem como a presidenta do Conselho Comunitário de Negritudes Cuenca Rio Palo y La Paila, dona Alicia Castillo. Após uma conversa entre todas as lideranças, o esgrimista e mediador Edgar e eu, o Mestre Sandoval com o direito ancestral à palavra e à decisão disse-nos que a depender dele o conhecimento seria repassado e que estaria a cargo das atividades o Mestre Miguel Lourido. Cheguei então a Puerto Tejada na terça feira 21 de novembro ficando hospedada toda a semana na casa do Mestre Miguel e sua Esposa Alicia. Entre os dias 21 e 26 de novembro tivemos aula de esgrima de machete y bordón todas as manhãs em uma dinâmica de em média 3 horas diárias de estudos de corpo e arma e narrativas sobre a história da prática da esgrima entre a população negra colombiana bem como suas implicações históricas em guerras nacionais e internacionais de independência e libertação. Durante as tardes eu ensinava capoeira para um grupo de cerca de 20 crianças do Pueblo que tinham entre 5 e 14 anos de idade. Durante as noites e outros momentos intermediários haviam conversas infinitas sobre a cultura local e a região assim como muitas informações da cultura negra brasileira era compartilhada tendo sido um intercambio realmente muito intenso. No sábado, após a última aula de capoeira com as crianças fomos ao lugar que se chama las dos aguas, o encontro do rio Paila e do rio Palo, de importância para a história da formação do palenque que precedeu o Pueblo Puerto Tejada num reconhecimento do território.

Como atividade de conclusão do intercâmbio organizamos uma roda de conversa sobre intersecções entre as artes da esgrima e da capoeira com os Mestres, a liderança do Conselho Comunitário de Negritudes e os praticantes de esgrima e capoeira Thomás e Edgar onde as crianças que participaram das aulas da capoeira estiveram presentes escutando os mais velhos. Nesse momento também foi exposta uma coleção de livros chamada Maletín de Relatos Pacíficos[4] que inclui o livro Memoria de Guerreros de autoria de Alicia Castillo Lasprilla[5] que teve seu formato inspirado na literatura de cordel tradicional do nordeste brasileiro. Ela presenteou a biblioteca do Quilombo Flor de Milho com um Maletín e também outra publicação de sua autoria chamada Legados de Liberdad, e para nosso acervo infantil nos brindou o livro Cuentos y leyendas de los Masai: um Pueblo de África Oriental de autoria de Anne W. Faraggi e ilustrações de Anne-Lise Boutin. Pudemos ainda fazer entre mulheres uma oficina básica da manifestação cultural típica da costa nordeste do Brasil chamada coco – origem, características, distintos tipos e base dos movimentos de corpo – na noite do dia 24 e na noite do dia 26 fizemos uma oficina de confecção de abayomís. No sábado dia 02 de dezembro – após a finalização das atividades acadêmicas – retornei a Puerto Tejada. Em uma caminhada pela beira do rio Paila dona Alícia me contou sobre os problemas que a comunidade desenvolveu e intensificou após a chegada do paramilitarismo na região e como eles reagiram à onda de violência em Puerto Tejada, de forma a que o próprio surgimento do movimento de organização cultural e comunitária tenha se intensificado como uma forma de resistência a esses processos.

Essa experiência me colocou em um lugar de empatia com a família que me recebeu e com as pessoas com quem trabalhei e me mostrou mais uma forma de como os recursos que temos à disposição – nossos saberes ancestrais ou conhecimentos acadêmicos – podem circular um outro tipo de economia e potencializar processos de organização social e política como também questões identitárias. Ali nos identificamos a partir de vários canais de compreensão e inter reconhecimento: a prática de lutas de matriz africana que nos permitia diálogos corporais muito intensos tanto a partir dos movimentos quanto dos códigos de honra e rituais de enfrentamento quanto pelo entendimento de que compartilhávamos de outras lutas para as quais a capoeira angola e a esgrima de facão se tornavam símbolos de resistência contra um mesmo marco opressor. Nos identificamos a partir do lugar de mulheres negras desconfortáveis com situações que já estão naturalizadas à nossa volta, que lutam por não ser alvos do feminicídio e de outras violências estruturais, usando facões se necessário for. Existem filosofias que nos dizem que essa conexão não se deu ao acaso e que ainda nos falta tempo para terminar de tecer nossas histórias, tempo que de tão importante não prescinde de marcadores para nos dizer onde começa ou termina nosso caminhar.

No dia 27 começaram as atividades da Escola de Estudos Avançados: Diálogos sobre Desigualdades Étnico Raciais entre África, América e Europa. Tratou-se de um encontro estritamente acadêmico voltado para professores, pesquisadores e estudantes de doutorado e mestrado de áreas desde a literatura, artes, dança, ciências sociais e saúde. Estar inserida em um encontro deste tipo é uma experiência muito rica e nos traz novas possibilidades de compreensão das desigualdades étnico raciais a partir do aspecto comparativo de alguns estudos apresentados e da quantidade de estudos de caso que nos permitem perceber quais as chaves explicativas para as relações de poder em cada contexto investigado. Nos faz também pensar sobre como essas relações hierárquicas se refletem nos espaços acadêmicos. O objetivo da escola foi explorar as relações contemporâneas e históricas da ‘diáspora africana’ entre os três continentes sob uma perspectiva interseccional entre raça, gênero e classe com ênfase nos estudos comparativos. É sabido que a ‘diáspora africana’ como tal foi estruturada a partir de uma relação desigual entre grupos sociais diferentemente localizados no âmbito do projeto colonial e, se partirmos do aspecto relacional desse processo histórico, a interação entre os grupos não fez com que todos se homogeneizassem, pelo contrário, deu origem a uma diversidade de discursos étnicos e políticos cada vez mais intensos e conflitantes bem como agenciamentos e negociações potentes de cada lado, embora acompanhados pelas marcas da subalternidade que aparecem de formas específicas em cada país ou região que possamos analisar. Essa pluralidade ficou muito bem representada no conjunto dos trabalhos, tanto aqueles que acompanhamos nas mesas temáticas por estudantes e pesquisadores quanto os estudos que conhecemos a partir das conferências magistrais. Mas aproveitando a oportunidade de ouvir e acompanhar apresentações e debates variados é possível desconfiar que haja ainda um padrão de ‘objetos de estudo’ que continuam tendo um quê de exotização. Enquanto intelectuais e/ou acadêmicos, quando colocamos nossa preocupação de estudo na ‘diáspora africana’ existe o risco de que isso se torne sinônimo de estudar as formas culturais ou organizacionais da população africana e seus descendentes latino-americanos ou então estudos de mestiçagem com ênfases em negros e indígenas, no máximo na identidade mestiça e dentro disso algumas ausências me incomodam. Quem são os sujeitos que estão se pensando e quem são aqueles que estão pensando outros étnicos e outros geográficos?

Percebi que xs pesquisadorxs oriundos de grupos subalternizados dão ênfase às subjetividades e à experiência dos interlocutores e que existe nesse grupo uma preocupação de ver-se representadxs no mundo acadêmico e nos estudos não mais e não somente como objetos de pesquisa. Essa marca foi muito visível nos trabalhos apresentados por mulheres negras nas mesas temáticas onde as falas e estudos demandavam também o espaço de abordar estratégias criadas para a lida com as emoções dxs interlocutorxs e das pesquisadoras em relação à produção de seus trabalhos. Foi notável a ausência estrutural de mulheres negras nas conferências magistrais em um evento ocorrido na segunda cidade mais negra das Américas – Cali – e com isso a invisibilização de suas perspectivas no jogo da construção de conhecimento. Corremos o risco de que os diálogos étnico-raciais propostos nesses espaços realmente enriquecedores epistemologicamente incorra numa reprodução de modelos ainda pautados nas relações coloniais pela falta da interseccionalidades entre raça, gênero e classe tão em voga dentro dos quadros analíticos quem compuseram este evento.

Nas brechas da escola de estudos avançados participei também do 3° Colóquio Internacional Afrodescendientes, evento que trazia uma proposta de discussão de temas como desenvolvimento econômico, inovação e inclusão social para afrodescendentes, mas também discutia educação, ciência e tecnologia, indústrias culturais, migrações, racismo, xenofobia e outras formas de discriminação. Ali pude escutar a fala de lideranças, mulheres negras e indígenas, da Colômbia, Brasil, Equador e outras partes abordando as situações de desigualdades étnico-raciais e assimetrias socioeconômicas contra as quais vinham estruturando suas lutas. Entre as apresentações havia pesquisas acadêmicas, análises de implementação de políticas públicas, relatos de experiências, intervenções artísticas e denúncias. Aprendi com vários grupos de mulheres, cantadoras do Chocó, parteiras de Buenaventura, com a arte das mulheres del Chontaduro, as lideranças espirituais das religiões afro. Durante as noites de Cali conheci dois grupos de capoeira – Grupo de Estudos de Capoeira Angola de Cali e Grupo Maculelê – com os quais pude compartilhar um pouco do meu conhecimento e aprender deles também.

Relatar essa viagem é relembrar uma experiência por outras formas de diáspora, impossível tratar essas questões com afastamento pela minha própria implicação cultural e étnica que me permite perceber e construir uma intelectualidade comprometida com minha subjetividade, com raízes e asas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Professor Osmundo Pinho:

A escola foi ótima. A programação muito densa e rica, e a grupo muito diverso e comprometido.

Chamo a atenção para aspectos positivos:

·         A possibilidade de intercâmbios horizontais como os realizados nas mesas (GT’s) e também nos encontros informais

·         O tamanho relativamente pequeno do grupo, que permitiu justamente os intercâmbios horizontais

·         Atividades como as que participei junto a Mara Loverman, Eberhard e Tereza Manjate, respondendo a questões previas, colocadas pelo Jan, o que permitiu destacar as diferenças conceituais entre as perspectivas apresentadas

o   -¿Como la categoría de "raza" es tratada en sus propias investigaciones empíricas? (¿Cómo podemos estudiarla empíricamente y con qué métodos?)

o   -¿Qué conceptualización de raza/lo racial ha orientado teóricamente su trabajo?

o   -¿Qué tipos de "comparaciones raciales" ha hecho en sus investigaciones (o cuáles se pueden hacer en general)?

·         A questão da diversidade das perspectivas também foi ressaltada por todos. As conferencias permitiram aos que se apresentaram desenvolver suas abordagens, ancoradas em contextos nacionais distintos e refletidas em distintas posições teóricas e politicas.

·         As saídas de campo, que permitiram um contato mais imediato com a realidade Colombiana, e talvez latino-americana, o que impressionou muito aos Africanos.

·         A atenção e o cuidado dos organizadore para com todos.

Pontos que poderiam ser revistos para o futuro:

·         Não da pra discutir  relações raciais e etnicidade sem levar em conta a dimensão politica do debate. O que significa:

o   1) Considerar de modo critico e reflexivo a posição dos próprios pesquisadores, marcada por raça e gênero

o   2) Tomar ativistas e intelectuais orgânicos como parceiros efetivos na produção do conhecimento. O que implica em lhes garantir  posições simétricas na estrutura do evento.

·         A agenda muito intensa reserva muito pouco espaço para  a autonomia dos participantes. Ou seja, uma tarde ou manha livre seria importante, inclusive porque muitos de nos não podem se ausentar de suas tarefas por dias. Mas também porque as pessoas podem escolher, de acordo com suas afinidades, agendas alternativas . Todos entendemos a boa vontade e o esforços dos organizadores, mas todos, se não muitos gostariam de ter um pouco mais tempo livre.

Desdobramentos

·         Na reunião final os pontos acima foram levantados, assim como perspectivas para o futuro:

·         A partir de um fala de Eberhard pareceu interessante considerar como foco para a próxima escola, o debate sobre produção de conhecimento desde o Sul. E como eu acrescentei, isso deveria refletir as tensões e contradições politicas e epistemológicas da pesquisa sobre raça, racismo e  etnicidade em contextos pós-coloniais.

·         O debate sobre raça X etnicidade atravessou toda a escola e seria um eixo forte de aprofundamento.

·         Ao que parece Maputo aparece como uma possibilidade forte para o próximo ano. Mas nada ficou estabelecido nesse sentido. Apenas a necessidade de trabalharmos para aplicar e conseguir recurso. Eu pessoalmente gosto da ideia de Maputo.

·         Conversei bastante com Aminata e Gilbert sobre a possibilidade de uma atividade na Bahia com eles, envolvendo a UFRB e o Pos-Afro, discutindo literatura, trauma, pós-guerra, racismo e teoria queer a partir de estudos comparativos de literatura. Eles fizeram apresentações brilhantes, densas e originais.

 



[1] Essas manifestações fazem parte de meus interesses de estudos contemporâneos às quais tenho acessado a partir de leituras, de estudos audiovisuais e de vivências corporais realizadas em Salvador a partir do escambo cultural no Flor Milho Quilombo de Artes com um grupo de artistas oriundos da região do pacífico colombiano e do Equador e que tem sido de fundamental importância para a construção de um processo criativo intitulado Navalha na Saia, que tem como objetivo representar artisticamente problemáticas subjetivas surgidas entre a pesquisa de doutorado que realizo e minhas próprias experiências de vida. A base das conexões que iniciou com grupos culturais colombianos teve início a partir desse escambo e do grupo de estudos que mantivemos juntos no Quilombo. Então o escambo de hospedagem se expandiu e em Cali as hospedagens foram estruturadas a partir inicialmente da rede de contatos da dançarina folclórica Cláudia Giraldo que permanecia instalada na sede do nosso grupo em Salvador.

[2] Sou aluna de capoeira angola do Mestre Zé do Lenço da Associação de Capoeira Angola Relíquia Espinho Remoso.

[3] Edgar trabalha nessa fundação com atividades lúdicas – capoeira, desenho, pintura, e outras artes – e o guia de todas as atividades são os direitos humanos.

[4] “O Maletín de relatos Pacíficos se realizou no marco do projeto ‘Apoio a preparação para REDD+ do FCPF’, como parte da estratégia de comunicações pra comunidades afrocolombianas e do povo negro ‘El Pacífico habla de REDD+’ através do Diplomado Pacífico em Escritura Creativa del Instituto Caro y Cuervo”.

[5] Alicia Castillo Lasprilla “Trabalha em processos étnico-territoriais em defesa dos direitos afros e da mulher. É gestora cultural e autoridade tradicional do Conselho comunitário de negritudes Cuena rio Palo y La Paila. Atualmente constrói o Centro Cultural de memória Étnica y Cultural, Casa del Cacao.”